Poesia 'A mula sem cabeça' do livro 'O rio o pássaro as nuvens'de Marcia Theophilo

No dia em que a Mula Sem cabeça veio visitar
a Pequena cidade
e todos estavam medrosos dentro de suas pequenas casas.
Yací saiu e a viu. Depois contou a todos nós.
Era urna mula com a cabeça de mulher,
os cabelos eram fluidos,
sabia falar com os mortos, girava os cabelos
como só um cavalo pode fazer. Mas
continuava a girar a cabeça de mulher
com seu corpo de mula
quem a poderia conter. A fúria movia seus cabelos.
Corria desesperadamente entre os mortos,
no meio da noite, relinchando.
Quando descarregou toda a sua ira e estava cansada,
Yací se aproximou,
deu-lhe um pouco d'água, ela absorveu em grandes sorvos.

Quase chorava, os cabelos desarrumados
eram cheios de terra,
os ramos tinham arranhado asperamente o seu rosto.
Yací lhe lavou o rosto, e viu os seus olhos acesos
de uma visão remota, inacessível. Recompôs-se.

Eu quero o meu canto
entre os sol e as estrelas
recorde que todos os dias
o balanço é a minha forma.

Como contar a perturbação de Yací!
nos seus olhos fulgurava
um desejo insaciável. Esta mulher cavalo com toda a sua fúria
balançava os cabelos em uma violência contida,
depois estava ali
submersa lamentando-se em uma espécie de estranho prazer.
Yací chegou-se mais perto. A luz da lua lhe fazia
ver melhor a cor de seus olhos:
eram igual ao mel incandescente.
Este estranho animal se aproximou,
lambendo-lhe o rosto com volúpia.
Este animal entre mulher e cavalo pousou nos seios de Yací,
dois estranhos seios pontiagudos
que quase a feriam e os volumosos
cabelos de cor bronzeada a envolveram.
A boca se espalhava por todo o seu corpo
e Yací entre o medo e a atração, quase desmaiou,
mas era em continuamente sacudida
por suas carícias pesadas e leves. De repente,
com um movimento brusco
de cabelos a abandona. E por muito tempo Yací
permanece imóvel,
nua entre os arbustos que a circundavam.
Algumas folhas caíram docemente
sobre seu rosto, como se quisessem provar
o que ela tinha provado.
As árvores que lhe estavam perto não moviam os ramos
e no entanto, um vento soprava, tocando levemente
as folhas que se mantinham
rígidas. O medo da Mula Sem Cabeça
fazia fugirem os outros seres vivos

 

Márcia Theóphilo - 1984

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