Poesia "Ultima Orgia" do livro "Eu canto Amazonas" de Marcia Theophilo

Abrem o paraíso, acendem a loucura
os nosso sensos desmesurados. Vamos
entre luzes ofuscantes, densas cores
em êxtase chamando os deuses.
Falam dentro de nós, livres,
ébrios os pequenos duendes da floresta
nos induzem a um canto, a um ritmo
fora do tempo e fora das ânsias.
É a última orgia do planeta.
Quem de nós se lembra dos limites?
É proibido as ordens que recebemos.
Não é ilusão a apoteose dos sensos.
Continuemos, nada nos faça parar
as divindades pagãs, desçam conosco
e se realize a maior de todas as estórias
sempre e somente medida pelos excessos.
Cada dia vivemos todas as estações
é água que brota e jorra aos nossos pés
todos os animais: do jaguar à preguiça
aos milhões em uma algazarra imensa.
Dentro nos fazem frenéticos, vivos.
No dia seguinte transformados os pensamentos
idéias alucinadas do grande baile
brilhos de pedras, mantos de plumas
animais correm na memória sem parar.
A festa è realidade, o inconsciente é estória e ritual.
Estão presentes todos, de todas as idades
frutas e flores, vida e morte e a força
do instinto acompanham o idílio.
Carnaval continua: riso e pranto
embriagar-se, fazer amor na praça
na fúria do baile alguém nos pode assaltar.
A faca traspassa o coração do inimigo
a vingança se repete, mas o ritmo é mais forte.
Tudo è presente: o horror e o prazer dos sonhos
a tempestade, a chuva, as praias,
imagens de antigos deuses,
o desejo alucinado finalmente saciado,
em mulher o corpo do homem se transforma,
a saudade afina os instrumentos
(violão, oboé, tambores,
pandeiro, berimbau, atabaques)
os sentimentos movem nossos corpos.
Um rio caudaloso são as nossas vozes
que cantando arrastam tudo:
as máscaras, os carros, a serpente sinuosa dos corpos.
Uma luz incerta tinge o crepúsculo,
e o sol junto às suas sombras
segue o frevo, o samba, a canção
o enredo, o batuque, a viola.
Tudo continua, não se conhece pausa:
primavera, outono e inverno aqui è verão,
fluidos o vestido e os pés, o riso do rosto,
vamos criaturas de todas as raças e cores,
trazendo nos corpos céus, florestas, rios.

 

Márcia Theóphilo - 1987

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