Poesia "O boto" do livro "Eu canto Amazonas" de Marcia Theophilo

Quando em suas noites de fogo Yaci acorda espantada,
Boto se transforma
em guerreiro e invade seu leito. As vozes abafadas
no escuro, cresce o silêncio, serpente ele se enrosca
e se enrodilha no seu corpo
pouco a pouco sobe sinuosamente,
entre carícias amacia as asperezas das escamas
Entre seus longos cabelos surge dizendo: meu amor.
É pedra, é água.
Onde é seu ninho? Navegando entre as folhas,
arcos e ciprestes lhe atinge em delírio
tirando-lhe o respiro: nuvem ela, polpa de fruta madura,
odores selvagens, cores. Pensamentos irracionais
exaltam seu corpo:
seus sentidos sete pulos de gato lascivo,
se interroga, pensa e soluça entre suas tranças.
Yaci abraça as suas coxas douradas.
Muito longe começa o teu rio, Boto.
Em desarmonia se cruzam olhares intensos.
Ela busca força em suas entranhas.
Garras arranham as ancas, as pernas, as costas Boto:
vingança desejada
Escuta seu nome por ele sussurrado: Yaci.
Boto sem remorso fere e ela se arrebata.
Procura-lhe em noites sem descanso
e nos dias seguintes chega inesperado.
Ele surge e ela se exalta.
Cavalos, ninhos, pássaros, borboletas
madeiras, serras, galhos, esferas, rios e riachos.
Boto metade água
metade peixe e metade homem.
Quando ama toca o fundo do rio e cavalga arrastado
pelas águas, inunda os arbustos entre ilhas.
Yaci estreita entre seus braços as escamas
peixe que foge, sabor de água e frutos do mar,
Boto peixe sal-sol-sal. Vida. Respiro.

 

Márcia Theóphilo - 1985

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